Atividade 4 Epistemologia e Psicanálise
Especialização
em Filosofia e Psicanálise.
Delma Donizete
Silva Coli.
Polo: Cachoeiro
de Itapemirim
Atividade 4 – Leitura com elaboração de fichamento do texto de
Freud: “Totem e Tabu”; elaborar a função do pai em psicanálise e suas relações
com a cultura.
Na obra de Totem e Tabu, Freud faz a reflexão sobre o
Complexo de Édipo na origem da civilização, obra mitológica, abordando o mito
da horda primevia e da morte do pai totêmico, levando a hipóteses acerca da
origem das instituições sociais, culturais, morais e religiosas.
Nessa obra criada em 1913, Freud vem nos apresentar a questão
da castração através dos estudos da antropologia social e a psicologia dos
neuróticos o autor afirma é que horror e desejo de incesto são duas faces de
uma mesma moeda, e estão presentes em todas as sociedades, tanto nas mais
antigas quanto nas modernas.
O totem apresenta característica que despertou a curiosidade
e o interesse do autor, qual seja, uma lei que proíbe as relações sexuais entre
pessoas do mesmo totem, bem como o casamento entre os mesmos. Esta proibição é
advertida sob prescrições rigorosas, cuja violação implica sérias consequências
para os membros de um grupo, revelando, desse modo, a presença tácita da regra
da exogamia.
É nessa questão que Freud articula a moral sexual dos povos
primitivos com a dos povos ditos “desenvolvidos”, pois em ambas há severas
restrições às pulsões sexuais e, principalmente, no que se refere à prática de
relações incestuosas.
O que Freud inaugura e enfatiza, sobretudo, é a relação
existente entre esta característica de desejo ao incesto e o psiquismo infantil
do neurótico. A psicanálise nos aponta
que a primeira escolha do objeto para amar e desejar é fundamentada em objetos
proibidos, de ordem incestuosa, mas, à medida que a criança cresce, há a
libertação dos desejos incestuosos. Por outro lado, no que tange ao psiquismo
de um neurótico, são preservados, em certo grau, um infantilismo psíquico que,
ou aparece como inibição, ou como regressão do desenvolvimento.
É nesse sentido que Freud compreende a real urgência dos
povos selvagens de se defenderam dos desejos incestuosos, pois, em última
instância, eles se efetivariam. Para tanto, são construídas proibições e
restrições que comparecem como um tabu. Mas, diferentemente das proibições
socializadas em nossa sociedade, nas tribos primitivas elas comparecem como
algo natural, dado e espontâneo, sem fundamento a priori e sem que haja um
sistema rigoroso que contemple e declare as interdições e os motivos para a sua
existência. Deste modo, poder-se-ia dizer que o tabu é auto referente, e se
impõe por conta própria, na medida em que não é submetido a qualquer ordem
externa senão a ele mesmo.
No sub tema o Tabu e a ambivalência emocional, Freud atribui uma especial importância ao
tabu por duas razões, a saber: por sugerir que o mesmo pode se revelar
esclarecedor para compreendermos a noção do “imperativo categórico” e, também,
por perceber a existência de uma íntima relação entre os tabus primitivos e as
proibições e convenções morais vigentes em nossa sociedade.
Considerando o texto a psicanálise freudiana e a cultura,
onde a definição de tabu é receber a agressividade dirigida a figura dos
inimigos, a violação de um tabu era, sem dúvida, motivo de punição ou castigo,
o que nos indica que “os primeiros sistemas penais humanos podem ser remontados
ao tabu”. Esta característica que reside no tabu de contato permeia, também, os
neuróticos obsessivos, na fobia do tocar.
Verifica-se, então, que a punição prescrito pelo tabu,
relativo ao contato com o interditado, aparece como um meio de alçar o objeto
desejado ao estatuto de um objeto impossível.
Esta expressão de desejo e, ao mesmo tempo, de temor, leva Freud a crer
que, assim como os povos primitivos sustentam esta atitude ambivalente, no
sujeito neurótico esse paradoxo também coexiste.
A evidência mais marcante da articulação existente entre as
proibições neuróticas e as suscitadas pelo tabu, emerge, pois, da origem não
determinada e destituída de sentido em ambos os casos. Nas considerações que
Freud tece, a origem do tabu aparece como algo imposto, noutra época, por uma
autoridade externa e não passível de demonstração ou clarificação.
As proibições obsessivas, segundo Freud, estão sujeitas ao
deslocamento, isto é, há um deslocar de um objeto para outro, que, quando
eleito, torna-se igualmente inacessível. A justificativa recai, novamente, ao
fato de que a proibição reflete o desejo e, portanto, ao tentar interditar o
desejo - que é de natureza inconsciente.
O percurso clínico e o discurso travado no seio da
psicanálise revelam que um ponto determinante para a imposição da proibição
ocorre logo no início da mais tenra infância, e depois terá como resultado
mecanismos repressores que envolvem, por exemplo, a perda de memória. O desejo,
por outro lado, ainda que reprimido, permanece vívido no inconsciente, ecoando
e se fazendo presente sob a persistência da proibição.
Freud retorna as fundamentais proibições, oriundas do tabu, e
as descreve como as leis básicas do totemismo: i) não matar o animal totêmico e
ii) evitar relações sexuais com membros do clã totêmico do sexo oposto. A
enunciação destes dois tabus, para os psicanalistas, parece denunciar o ponto
central dos desejos da infância e o núcleo das neuroses.
É possível, neste presente momento,
mencionar que há uma forte motivação inconsciente para a ação proibida,
originária do próprio tabu, que, em si mesmo, possui o poder de transmissão e
contágio do interdito, bem como a capacidade de produzir a tentação ou mesmo de
incentivar a imitação. A violação, nesse sentido, traduzida por impulsos
conscientes, deve ser vetada, visto que apresenta um perigo real para a
convivência em sociedade.
A necessidade dessa instância de interdição
é enfatizada por Freud, pois é por meio dela que é possível impedir a
satisfação da pulsão, incompatível com o socius e, deste modo, preservar o laço
social. Somente assim é possível manter a ligação durável e inevitável do
desejo e da lei, razão pela qual o corpo social imprime severas proibições, com
o intuito de reprimir, organizar e canalizar a sexualidade (KOLTAI, p. 31).
Se, por um lado, a renúncia é necessária em
prol da obediência que deve ser destinada ao tabu, por outro lado, ela também é
compensatória, na medida em que impõe outra alhures.
Os seres humanos são extremamente
ambivalentes em relação ao tabu, e ao realizar uma análise pormenorizada das
relações contraditórias existentes entre os povos primitivos, Freud fundamenta
esta constatação.
No que diz respeito à relação dos súditos
com seus superiores (governantes), é possível identificar os contrastes
gritantes que coexistem em sua base. Embora o rei seja autorizado a gozar de
grandes privilégios, enquanto outros não o são, ao governante são endereçados
certos tabus que não são prescritos aos demais viventes. Este dado confere
validade à existência da ambivalência, na medida em que, ao mesmo tempo, a
expressão do mais profundo respeito por eles não passa de um castigo, uma
vingança de seus súditos. Não é de se admirar que suas vidas se transformem num
verdadeiro inferno, acabando por viver uma servidão maior do que a de seus
súditos.
As analogias que Freud estabelece, nesse
segundo capítulo, entre os selvagens e os neuróticos, revelam,
fundamentalmente, a presença de sentimentos ambivalentes e contraditórios, que
ora são hostis, ora são afetuosos. Este caráter dúbio dos impulsos revela que
há, simultaneamente, satisfação em ambas as experiências, encontradas nestes
dois pólos que, apenas aparentemente, são dissociáveis.
Ao final deste capítulo, o autor se
aproxima do que mais tarde irá tratar sobre natureza e a origem da “consciência
moral”, compreendida como a condenação que o sujeito sente ao agir influenciado
por certos desejos. Do mesmo modo que o tabu, ela parece também ser parida pela
ambivalência afetiva, na qual uma parte da oposição permanece inconsciente,
através de alguns mecanismos psíquicos, enquanto a outra se manifesta,
explicando, assim, o seu caráter angustiante.
Alguns processos psíquicos inconscientes se
diferem, quanto a sua natureza, dos conscientes, desfrutando de certas
liberdades negadas aos últimos, tais como o deslocamento e a projeção
(mecanismos de defesa), que permitem à pulsão manifestar-se num lugar outro,
que não aquele onde surgiu.
Freud lança luz sobre diversas semelhanças
encontradas entre o tabu e a neurose obsessiva, porém, ele nos alerta de que é
necessário lembrar de que o tabu é uma formação social, gerada no bojo da
cultura e, por isso mesmo, diferente da neurose, que se caracteriza pela
dominação e sobreposição dos componentes sexuais aos sociais.
O contrário parece surgir, pois, na
neurose obsessiva. Aparentemente agindo de forma altruísta, o neurótico, ainda
que acometido de impulsos de transgressão, quando defrontado com a
possibilidade de concretizar o ato proibido, recua e se detém. A justificava
reside no temor que ele sente de que alguém por quem ele tenha muito apreço
sofra as punições em seu lugar. Poder-se-ia supor uma “inesperada nobreza do
neurótico”, mas, o que Freud aponta é que, assim como o primitivo, ele também
teme ser castigado por seu desejo de morte contra a pessoa que lhe é cara. A
diferença, contudo, está no fato do neurótico recalcar esse desejo, que, por
meio de sucessivos deslocamentos, se transformou em temor de que a pessoa
viesse a falecer.
O autor conclui, deste modo, o porquê
dos fatores sociais desaparecerem nos casos de neurose, pois eles reaparecem
mascarados por uma sobre compensação.
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